Compartilhar no facebook
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no twitter
Compartilhar no email
nelson_pretto.jpg

Entrevista com Nelson Pretto

A equipe do GEDAI conversou com o professor Nelson de Luca Pretto sobre vários assuntos concernentes aos Direitos Autorais e à educação, especialmente o uso de Recursos Educacionais Abertos.

 

(por Alice de Perdigão Lana e Marcelle Cortiano)

Vemos que existe divergência entre os autores sobre o sharealike, uma das possibilidades do copyright creative commons que estabelece que a informação ali só pode ser compartilhada com as mesmas liberações e limitações. Qual sua opinião?

Essa é uma grande polêmica: o que você quer é garantir que não se possa fechar o conhecimento, mas com o sharealike também se limita o conhecimento. Considero isso, em realidade, uma falsa polêmica. Sou a favor do copyleft, liberar tudo. É isso que eu apoio.

E a questão da curadoria no movimento REA (Recursos Educacionais Abertos)?

Temos duas grandes tendências no movimento REA: a primeira são aqueles que acham que é aberto quando está livre para ser usado. Isso é muito bom, mas não basta. Quando digo que está livre para ser usado, parto do pressuposto que o que me importa é o produto. O meu foco, a educação, é que o material seja livre para ser usado e seja instrumento para novas produções. Me preocupo com o processo, e não com o produto. Mais importante do que uma unidade física que fala sobre átomo, é os estudantes construírem uma unidade de física que fale sobre o átomo, que os estudantes escrevam sobre o átomo. O foco não é no consumo, mas sim na produção. Não jogo fora o conhecimento estabelecido; preciso conhecê-­lo para criticá-­lo e produzir.

E sobre a divulgação dos REAs?

O que eu produzi, o conhecimento produzido, é um produto, mas não vai ser usado como um produto para ser consumido. Ele vai passar pelo mesmo processo, você vai desmontar para produzir. Esse é o ciclo virtuoso de produção de cultura e conhecimento. Estamos caminhando.

E qual sua opinião sobre a questão da escola?

O problema da escola é que ela acha que a educação pela educação vai salvar o mundo. É um elemento importante, mas é conservador. O professor busca enquadrar o aluno. Ele desafia o novo, e o novo desafia o velho. Um bom professor não é aquele que vai dizer para o menino qual mundo ele vai consturir; o professor só vai provocar, expor o mundo que ele construiu. É no embate que se forma o jovem, que fará isso com o jovem do amanhã, e assim sucessivamente. E como se fosse possível, na escola, chegar a um momento ideal de aprendizagem. Isso é ridículo. Escola é essencialmente desordem. Ela deveria se pautar na crítica e não em um progresso simplista.

E a universidade?

Não faz sentido falar em preparar para o mercado pela universidade. O mercado tem uma dinâmica muito particular. Não tem que preparar pro mercado, mas pro mundo, incluindo o mundo do trabalho. O ser humano é muito imediatista, acha que a educação é algo que bem feito resolve o problema. Escola não é fábrica. Por isso os sistemas de avaliação universalizantes, por scores e rankings, como o ENEM, são fadados ao fracasso. Isso está internalizado não só no sistema educacional, mas nas pessoas também. Há uma supervalorização da aula; criticam a universidade pública porque tem greve, mas como um jurista ou um juíz pode ser um bom profissional se não entender o direito à greve? Como vai entender direito autoral sem compartilhar música? Apenas o código não é o suficiente, não adianta. Não há como atualizar a lei todo dia; precisamos de bacharéis que entendam isso.

E a imprensa?

Imprensa faz campanha contra a pirataria, é um desserviço, confundem bem rival com bem não rival. Roubar um disco não tem nada a ver com compartilhar uma música. Quando dizem que hacker é criminoso, fazem isso para naturalizar essa concepção. Esses temas que estamos tratando aqui no CODAIP são de interesse direto da imprensa. O Estadão, por exemplo, foi o primeiro jornal digital, saiu na frente, investiu nisso e eram referência. Quando os blogs explodiram, [O Estadão] fez uma publicidade falando “Você não sabe quem está do outro lado, confie no Estadão”. Quando a produção passou a ser feita por todo mundo, tiraram a credibilidade.

Assine nossa newsletter: