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A Estratégia da Coreia do Sul de contenção da COVID-19

A Estratégia da Coreia do Sul de contenção da COVID-19

 

Guilherme Boczkovski Delfino – Graduando em Sistemas de Informação na Universidade Federal de Santa Catarina. Membro do GEDAI/UFPR.

Isabella Moreira de Britto – Graduanda em Direito na Universidade Federal do Paraná. Membro do GEDAI/UFPR.

Maria Clara Antunes Moraes – Graduanda em Direito na Universidade Federal do Paraná. Membro do GEDAI/UFPR.

 

(Revisor) Roberto Nelson Brasil Pompeo Filho

 

  1. A família Coronavírus: sua potencialidade de infectar humanos e animais

 

Coronavírus é uma grande família de vírus que pode causar doenças em humanos e animais. Em humanos, os vírus conhecidos desta família causam problemas respiratórios, e não é diferente com o SARS-CoV-2, o vírus causador da COVID-19. Os principais sintomas são febre, cansaço e boca seca, podendo ocorrer também dores de cabeça, congestão nasal, dor de garganta e diarréia. Aqueles que desenvolvem a doença de forma mais grave possuem dificuldade para respirar e podem precisar de leitos hospitalares e máquinas para auxiliar na respiração [1].

A pessoa pode ser contaminada quando o vírus entra em contato com a boca, nariz ou olhos. Para a maioria das pessoas a doença não é letal, tendendo a ser mais grave em pessoas de idade avançada e pessoas com condições médicas pré-existentes, tais como pressão alta, problemas cardíacos ou pulmonares, câncer e diabetes. O tempo de incubação do vírus (estado em que a pessoa infectada não desenvolve a doença, mas pode contagiar outras pessoas) varia de 1 a 14 dias, sendo mais comum algo em torno de 5 dias [1].

De acordo com Poder 360 [2], em matéria publicada em 25 de janeiro de 2020, estudos realizados pela Universidade do Nordeste, de Massachussets (EUA), estimaram que o surto atingiria cerca de 6.000 pessoas em todo o mundo, ou mais de 10.500 pessoas no pior do cenário. Conforme atualização do dia 5 de abril de 2020, com 1.268.855 casos confirmados e 69.330 mortes por todo o mundo, percebe-se que o mundo não esperava pelo que estava por vir. No entanto, um país em especial tratou esse problema de forma séria desde o início: a Coreia do Sul [3].

 

  1. O surto anterior em 2015 do MERS-CoV: conhecimento e preparo 

            A experiência traumática sul-coreana trilhou os caminhos e estratégias que o país tem seguido para conter a nova pandemia do COVID-19. Em 2015, a Coreia do Sul sofreu o maior surto de MERS (Middle East respiratory syndrome) fora do Oriente Médio, com 186 casos confirmados, 38 mortes e mais de 16 mil em quarentena. O MERS-CoV também é um vírus da família coronavírus [4][5].

A doença chegou ao território a partir de um empresário sul-coreano, que se dirigiu a três estabelecimentos de saúde distintos até que se identificasse a síndrome. Ao longo desse período, inúmeras pessoas foram contaminadas [4]. O país não levou a sério a infecção a princípio, não a colocaram na zona de perigo [5].

Durante o surto de MERS, os coreanos não sabiam quem estava infectado e em quais hospitais. O governo não pôde revelar os dados privados de pacientes, pois isso feria a ética médica, especialmente. Muitas pessoas, consequentemente, pediram por transparência [5]. Desde então, há, no país, legislação que autoriza o governo a coletar informações de telefone, cartão de crédito, dentre outras [4]. Depois do MERS, passou-se a privilegiar a informação em detrimento da privacidade [6]. Por conseguinte, as autoridades de saúde e governos locais sul-coreanos vêm rastreando e investigando os infectados desde os primeiros casos relatados. Assim, a população pode saber por onde estes andaram e se, em algum momento, estiveram em contato [5].

Com isso, os coreanos já se alertaram precocemente quanto ao COVID-19, ativando um sistema de resposta de emergência, a fim de rastrear todos os provenientes de Wuhan (centro da epidemia na China) que tentassem entrar no país. O primeiro caso com diagnóstico positivo foi reportado no mesmo dia que o dos Estados Unidos – 20 de janeiro de 2020 [5].

Os sul-coreanos também aprenderam a importância do diagnóstico precoce: um kit de diagnóstico de MERS que não havia passado por testes clínicos não pôde ser utilizado. Assim, em 2016, em consequência da tragédia no país, foi promulgada uma lei que autoriza utilização de testes de diagnóstico in-vitro ainda não aprovados, em caso de emergência da saúde pública [5].

O espectro de uma epidemia, na época, alarmou o país. Kim Woo-Joo, especialista em doenças infecciosas da Universidade da Coreia, disse que “essa experiência mostrou que testes laboratoriais são essenciais para o controle de uma infecção emergente” [10]. Em consonância, Park Neunghoo, ministro da saúde do país, afirmou: “detectar o vírus em seus estágios iniciais é essencial para poder identificar as pessoas infectadas, e, assim, impedir ou atrasar sua disseminação” [7].

O jornalista coreano da BBC, Bugyeong Jung, afirma que a Coreia do Sul se encontra preparada para lidar com a atual pandemia desde o MERS. Partindo disso, a estratégia do país foi criar uma ampla rede de diagnóstico, a fim de reduzir a taxa de mortalidade [6]. Dessa forma, quando o novo coronavírus emergiu na China, o KCDC (Korea Centers for Disease Control) – Centro de Controle e Prevenção de Doenças da Coreia – passou a desenvolver testes. O primeiro teste foi aprovado no dia 7 de fevereiro e, após 11 dias, uma mulher, conhecida como “paciente 31” testou positivo – o que será abordado adiante [4].

Resultante desse propósito de diagnóstico precoce e da anterior lei de diagnósticos in-vitro mencionada, não há escassez de testes na Coreia do Sul, embora esta realize aproximadamente 140 mil testes por semana. Porém, apesar disso, ainda houve erros: ao menos dois pacientes morreram na espera de um leito na cidade mais afetada – Daegu [8].

A princípio, a reação sul-coreana foi colocar em quarentena todos os infectados em um leito de hospital. Agora, somente os que se encontram em estado de saúde crítico serão hospitalizados, como bem afirma o especialista em doenças infecciosas do Korea National Medical Centre, Dr. Kim Yeon-Jae: “nós não podemos colocar todos os pacientes em quarentena, nem tratá-los. Aqueles com sintomas suaves devem ficar em casa e ser tratados” [7]. O que mostra que mesmo o país que é o maior exemplo no combate à COVID-19 apresenta erros – no entanto, aprende com eles.

 

  1. Os primeiros casos detectados na Coreia do Sul

 

A Coreia do Sul confirmou o primeiro caso importado do COVID-19 – na época, ainda chamado de 2019-nCoV – em 20 de janeiro de 2020. O caso era uma mulher chinesa, residente em Wuhan, na China [9]. Os primeiros sintomas da chinesa apareceram em 18 de janeiro de 2020 e ela buscou tratamento em um hospital de sua cidade, no qual foi diagnosticada com um resfriado. Em uma investigação inicial feita nesse primeiro diagnóstico, a mulher negou ter estado em grandes mercados tradicionais ou ter tido contato com quaisquer pessoas testadas positivo para COVID-19 [10].

O caso foi detectado no escaneamento térmico realizado no Incheon International Airport, indicando febre alta. Após foi isolada e, preventivamente, foi realizado o rastreamento dos contatos da paciente. Desde o dia 03 de janeiro, as autoridades de saúde coreanas já haviam elevado a supervisão dos casos de pneumonia e estavam mantendo em quarentena e realizando testes em viajantes vindos de Wuhan, conforme dados apresentados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças Coreano – KCDC [9].

Com a confirmação do caso, o risco de contaminação por contato social já estava sendo comunicado, e o monitoramento, expandido. Os tripulantes e passageiros que estavam no mesmo voo que o primeiro caso foram devidamente analisados, ficando sob monitoramento e isolamento por 14 dias e, no caso de algum dos pacientes desenvolver os sintomas da doença, seria testado [9].

O governo, em reação à confirmação, determinou um sistema de quarentena de emergência [10]; além de determinar que qualquer visitante vindo de Wuhan deveria responder a um questionário de saúde e adotar a quarentena em caso de apresentar os sintomas. Os casos que se seguiram também foram importados da China, iniciando a contaminação dos sul coreanos.

Em 21 de fevereiro, já havia a confirmação de 100 casos no país e a segunda morte causada pelo vírus. O surto, conforme suspeitas das autoridades coreanas na época, teria se originado em Cheongdo, especificamente por causa da realização do funeral do irmão do criador de um culto religioso, evento que aglomerou muitos dos membros de tal igreja [11].

Já em Daegu, houve um aumento no número de casos em função da contaminação da comunidade religiosa da igreja Shincheonji. Nesse culto, em que havia por volta de 1.000 pessoas, estava presente uma mulher de 61 anos, que foi testada positivo para o vírus na semana do dia 21 de fevereiro, confirmando o 31º caso no país. As medidas cabíveis foram tomadas pelos religiosos, como o fechamento do ramo da igreja na cidade e a realização dos serviços online por meio de plataformas digitais, contudo, aquela reunião pontual resultou em mais de 400 pacientes sintomáticos da doença. O fato se tornou mais preocupante ao se considerar a população da cidade: 2,5 milhões de pessoas, a quarta maior do país. Dessa forma, o governo recomendou aos residentes que permanecessem em isolamento social [12].

Em meados de março, a região de Daegu apresentava 499 casos confirmados, dos quais 409 estavam ligados ao culto da igreja Shincheonji [8]. A seita religiosa conta com cerca de 200 mil membros, e os casos ligados a essa religião não se resumem aos casos em Daegu: há outros casos em outras cidades; embora não se tenha formado, até o momento, uma rede de contaminação tão grande em outro lugar, apenas em Daegu – como informam os dados do KCDC [13].

Contudo, no mês de março, houve uma queda na velocidade de propagação do vírus tanto na cidade de Daegu quanto no país como um todo, já que a maioria dos casos estava em Daegu. A desaceleração da velocidade de propagação do vírus na Coreia do Sul se deve, em muito, ao rastreamento dos casos da igreja Shincheonji – o que exige, também, uma concentração de esforços nessa região, resultando em menor atenção para outros focos de contaminação [4].

 

  1. Os novos centros de contágio

O primeiro surto, como já apresentado, ocorreu devido à disseminação do COVID-19 dentro da Igreja Shincheonji, em Daegu – primeiro principal centro de contágio. Assim, após três dias consecutivos de redução do número de novos casos, de acordo com Kang Kyung-wha, ministra das relações exteriores, o governo acreditava na estabilização da situação [15].

Todavia, no dia 11 de março de 2020, foram localizados, no callcenter de Guro-gu, em Seul, 93 novos casos de COVID-19 – baseado no rastreamento de 207 funcionários. Dois destes estavam relacionados ao grupo religioso ligado a mais de 60% dos casos na Coreia do Sul – contudo, seus testes foram negativos para a presença do vírus [3]. A nova onda de surtos era a maior de Seul e expunha a risco cerca de 25 milhões de pessoas (região metropolitana da capital) [16].

Conforme o ministro da saúde, Park Neunghoo, em comunicado, “as infecções conhecidas neste callcenter podem ser o início de uma nova onda que leva a um surto regional e à propagação da epidemia” [17] [7]. De um total de 330 casos, no dia 18 de março de 2020, em Seul, 156 são referentes ao callcenter de Guro-gu [18].

Em Daegu, principal centro de infecção – com mais de 6.400 casos [18] – foi descoberto, no dia 18/03/2020, outro grupo infeccioso: um hospital de enfermagem. Mais de 70 pessoas foram infectadas – 57 pacientes e 18 médicos –, de acordo com pronunciamento das autoridades locais [19].

O hospital informou ter 117 pacientes, majoritariamente idosos, que sofrem de demência. A recomendação foi que se fizesse uma cohort isolation, ou seja, separar esse grupo de paciente dos demais – método comprovado eficiente na prevenção da disseminação de novos casos nas instalações do hospital [19].

Em Daegu, apesar de novos casos virem se estabilizando, aumenta-se gradualmente o número de casos esporádicos de contaminação de origem desconhecida. Isso fez com que as autoridades locais conduzissem uma investigação em cerca de ⅓ das instalações da cidade [19].

As autoridades estão em alerta quanto à possibilidade de novos grupos de infecção. Há grupos preocupantes relacionados a igrejas, zumba e esportes – o que levou a suspensão dessas atividades, a fim de evitar a disseminação e o contato físico [20].

Segundo atualizações do KCDC [20], no dia 5 de abril de 2020, a Coreia do Sul registrou 10.237 casos no total, incluídos os casos importados, sendo que foram confirmados 81 casos novos. Ainda, no começo de abril, os principais centros de contágio no país consistem em igrejas, hospitais, centros de repouso, entre outros, nas cidades de Seoul, Daegu, Gyeonggi e Gyeong-buk [20].

 

  1. As reações do governo coreano

 

Desta forma, diversas medidas, nos mais variados âmbitos, foram tomadas para o controle daquilo que já se tornara uma pandemia. No dia 03 de janeiro, ainda sem casos confirmados no país, o governo elevou o nível de alerta de azul (nível 1) para amarelo (nível 2), começando a implementar medidas aprimoradas de quarentena e triagem para visitantes de Wuhan [22]. No dia 28 de janeiro, com 4 casos confirmados e zero mortes, o nível de alerta passa para laranja (nível 3) [23]. Somente no dia 23 de fevereiro, com 602 casos confirmados e 5 mortes [24], o governo decreta nível de alerta máximo, o nível vermelho [22].

Medidas econômicas tiveram de ser tomadas para apoiar e impulsionar a economia dos governos locais, devido ao impacto econômico que a doença traria, tais como:

  • Destinar 136,7 bilhões de wons (aproximadamente US$ 100 milhões) para governos locais para prevenção e controle do vírus [22];
  • Ajuda financeira de 50 trilhões de wons (aproximadamente US$ 39 bilhões) para impedir a falência de pequenas e médias empresas [22];
  • Suporte financeiro para que pequenas empresas possam contrair empréstimos a juros de 1,5% ao ano, assim como um programa especial de garantia de empréstimo para que pequenas e microempresas possam refinanciar o empréstimo e adiar o pagamento de juros [22];
  • Suporte para a aquisição de máscaras e kits de testes [22].

Dessa forma o governo tenta amenizar os impactos causados na economia local devido a fatores como quarentena, queda no turismo e queda nas exportações, por exemplo [22]. Medidas de estabilização do mercado financeiro também foram tomadas com o intuito de evitar as recorrentes quedas da bolsa coreana [25].

Diagnóstico, isolamento e rastreamento são as três palavras-chave para o sucesso sul-coreano, sendo que este último divide opiniões entre a população. Quatro dias após o primeiro caso confirmado, testes rápidos de diagnóstico para o Sars-Cov-2 já estavam disponíveis nas unidades do KCDC. Em fevereiro estes testes também estavam disponíveis em centros médicos privados, assim como um teste recém desenvolvido que pode detectar o vírus em 6 horas também foi disponibilizado em 50 unidades de saúde [22]. Apostando no diagnóstico e isolamento dos casos confirmados, o país tem conseguido controlar o surto sem a necessidade de medidas restritivas autoritárias como foi feito na China [26].

No dia 22 de março, o KCDC optou por conduzir testes do COVID-19 a todos os viajantes vindos da Europa, que estão sendo colocados em quarentena ou monitoramento. Isso decorreu do alto número de novos casos importados da região (21,9%), o que levou o KCDC, também, a recomendar o cancelamento de viagens não urgentes e o distanciamento social [18].

De acordo com a BBC [8], em matéria publicada em 12 de março, aproximadamente 20.000 pessoas são testadas todos os dias para o novo coronavírus, sendo este número proporcionalmente maior do que em qualquer outro país no mundo. Para tal, foram implantados dezenas de centros drive-thru para a realização de testes na população sem que as pessoas precisassem sair de seus automóveis. Nestes centros são realizadas coletas de saliva para os testes, as coletas são enviadas a um laboratório que funciona 24 horas por dia, e os pacientes são avisados sobre o diagnóstico por ligação telefônica ou SMS.

Ambos, Coreia do Sul e Estados Unidos, tiveram seu primeiro caso de COVID-19 registrado no mesmo dia, em 20 de janeiro de 2020. No entanto, enquanto na Coreia do Sul o número de casos novos por dia tem diminuído, nos Estados Unidos a situação é totalmente diferente, com um crescente número de casos novos todos os dias. Os EUA já registraram, até dia 23 de março, um total de 459 mortes [27], já o país de nosso estudo de caso registrou, até a mesma data, um total de 111 mortes, ou seja, aproximadamente 4 vezes menor. Inversamente proporcional ao número de mortes, temos o número de testes realizados, no período em que os EUA fizeram um total de 60.000 testes para uma população de aproximadamente 330 milhões de pessoas, a Coreia do Sul fez 290.000 testes em uma população mais de seis vezes menor [28].

No dia 05 de abril de 2020, foram reportados 334.345 casos e 9.558 mortes nos EUA, significando uma taxa de mortalidade de 2,86%, aproximadamente [27]. Já o país de nosso estudo registrou, até a mesma data, um total de 183 mortes entre 10.237 casos, resultando em uma taxa de mortalidade de 1,79% [27].

Para a realização de tantos testes é necessário um ecossistema capaz de sustentar essa demanda, e na Coreia do Sul não faltam kits de teste, pois quatro empresas receberam a permissão de fabricá-los, visto que o teste, de acordo com o professor Gye Cheol Kwon, presidente da Laboratory Medicine Foundation, possui precisão de cerca de 98%. Medidas como quarentena obrigatória e bloqueios de estradas não precisaram ser adotadas, o que é um alívio para a população, no entanto as medidas de rastreamento e divulgação das informações não agradaram a todos [8].

Os sul-coreanos são grandes adeptos da tecnologia, portanto é de se esperar que surjam soluções tecnológicas para o surto que está a assolar a região. Desenvolvedores tanto da esfera pública quanto privada desenvolveram aplicativos móveis com o objetivo de rastrear a doença, que ficaram entre os mais baixados da Google Play. Esses aplicativos coletam dados disponibilizados de forma pública pelo governo e compilam de uma forma mais visual para o usuário [29].

Os problemas começam quando os dados fornecidos publicamente pelo governo passam a ser muito detalhados e reveladores, com divulgação de detalhes pessoais, rosto, localização e mais, de forma que, juntando os dados, seja possível identificar alguns dos pacientes. Dessa forma, os pacientes ficam expostos, havendo casos em que são julgados por internautas por frequentarem locais como bares e motéis, sendo inclusive acusados de terem casos extraconjugais [30].

Ainda, para rastreamento de possíveis infectados o governo possui informações sigilosas sobre seus habitantes tais como histórico de uso de instalações médicas e visita a farmácias, histórico de gps, registros de cartão de crédito e imagens de câmera. Dessa forma o governo visa identificar sintomas que o paciente pode estar tendo, a rota que ele está traçando e por quantas e quais pessoas ele passou. Inclusive, por meio de software de reconhecimento de imagem, é possível determinar o grau de vulnerabilidade do paciente – por exemplo, verificando o uso de máscara [31].

O governo de Israel autorizou, temporariamente, suas agências de segurança a rastrear os dados dos celulares de pessoas com suspeita de COVID-19 – atitude inspirada na Coreia do Sul. Tal medida será usada a fim de reforçar a quarentena e alertar a população. “A Associação dos Direitos Civis de Israel disse que a mudança ‘abre um precedente perigoso’”, uma vez que esses poderes são comumente utilizados para o combate ao terrorismo [32].

A agência de segurança doméstica – Shin Bet – coletará dados de localização a serem compartilhados com as autoridades de saúde. No entanto, os detalhes de tal “monitoramento cibernético” não foram divulgados. Ao ser caracterizado como possível caso do novo coronavírus, o indivíduo poderá ser rastreado pelo Ministério da Saúde, que certificará se a quarentena está ou não sendo cumprida. Ainda, poderá alertar as pessoas que possivelmente tiveram contato com ela antes que os sintomas possam se manifestar [32].

 

 

 

  1. O exemplo da atuação da Coreia na rapidez das implementações de ações

 

No dia 23 de março de 2020, a situação do combate da Coreia do Sul ao COVID-19 segue sob controle, graças a uma atuação precisa, tanto nas medidas quanto no tempo em que estas foram aplicadas. Todavia, não há cenário de país contaminado que não apresente problemas, e a Coreia do Sul não é exceção: há dificuldade de repor estoques de máscaras e álcool em gel nos estabelecimentos – frente à grande demanda da população – e também existiram casos em que pacientes faleceram enquanto esperavam a disponibilização de um leito nos hospitais lotados. Essas dificuldades são inerentes a qualquer crise de saúde pública, principalmente ao se tratar de um vírus que possui acentuada capacidade de transmissão, somada ao fato da conectividade do mundo por conta da globalização.

Ainda assim, o país asiático é tomado como exemplo por diversos profissionais da saúde, jornalistas e pelos próprios governos. Isso se dá pelo fato da rapidez do governo em detectar, isolar e rastrear os casos – o que é explicado pela própria experiência sul-coreana em outros surtos. O país estava relativamente preparado para não deixar que uma epidemia progredisse entre a população da mesma forma que ocorreu com a MERS, em 2015 e, mediante a utilização de seu alto desenvolvimento tecnológico, foi capaz de controlar o avanço da pandemia em seu território.

Entre as medidas adotadas, as que ganham destaque são a disponibilização de dados pessoais dos habitantes pelo governo e o desenvolvimento de aplicativos para visualização facilitada dos dados, nas esferas pública e privada. Essa política pode ser analisada como uma solução inovadora; no entanto, é vista por muitos como invasão de privacidade.

Porém, é fato que 83,5% dos casos confirmados no país já foram rastreados e ligados a uma fonte de contaminação [20], possibilitando que as pessoas, por meio de consulta aos aplicativos, determinem se estiveram em contato com o vírus, colocando-se em auto quarentena, para evitar uma maior disseminação do vírus – o que só é possível com a política aplicada pelo governo em relação aos dados.

 

  1. Referências

[1] Q&A on coronaviruses (COVID-19). World Health Organization. 9 mar. 2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses. Acesso em: 23 mar. 2020.

[2] PODER 360. Surto de coronavírus provoca apreensão mundial; leia o que se sabe até aqui: Doze países confirmaram casos; na China, 41 pessoas morreram; origem do vírus é desconhecida. Poder 360. 25 jan. 2020. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/surto-de-coronavirus-provoca-apreensao-mundial-leia-o-que-se-sabe-ate-aqui/. Acesso em: 23 mar. 2020.

[3] Covid-19 Coronavirus pandemic. Worldometer. 01 abr. 2020. Disponível em: https://www.worldometers.info/coronavirus/. Acesso em: 05 abr. 2020.

[4] NORMILE, Dennis. Coronavirus cases have dropped sharply in South Korea: what’s the secret to its success? 17 mar. 2020. Disponível em: https://www.sciencemag.org/news/2020/03/coronavirus-cases-have-dropped-sharply-south-korea-whats-secret-its-success. Acesso em: 23 mar. 2020.

[5] KIM, HyunJung. South Korea learned its successful Covid-19 strategy from a previous coronavirus outbreak: MERS. Bulletin of the Atomic Scientists. 20 mar. 2020. Disponível em: https://thebulletin.org/2020/03/south-korea-learned-its-successful-covid-19-strategy-from-a-previous-coronavirus-outbreak-mers/#. Acesso em: 23 mar. 2020.

[6] Covid-19: is South Korea beating back the virus? The number of patients recovering from the disease has outpaced new cases on Friday. News Day. Áudio disponível em: https://www.bbc.co.uk/programmes/w172wpkrycs2lmy. Acesso em: 23 mar. 2020.

[7] Coronavírus: o que está por trás do sucesso da Coreia do Sul para salvar vidas em meio à pandemia. BBC News, Brasil. 16 mar. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51877262. Acesso em: 23 mar. 2020.

[8] BICKER, Laura. Coronavirus in South Korea: How ‘trace, test and treat’ may be saving lives. BBC News, Seul. 12 mar. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia-51836898. Acesso em: 23 mar. 2020.

[9] KCDC. The first imported case of the novel coronavirus (2019-nCov) in Korea. 22 jan. 2020. Disponível em: https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030&act=view&list_no=365797&tag=&nPage=13. Acesso em: 22 mar. 2020

[10]  LEE. Joyce. South Korea confirms first case of new coronavirus in Chinese visitor. Reuters, World News. 20 jan. 2020. Disponível em: https://www.reuters.com/article/us-china-health-pneumonia-south-korea/south-korea-confirms-first-case-of-new-coronavirus-in-chinese-visitor-idUSKBN1ZJ0C4. Acesso em: 22 mar. 2020

[11] Coronavirus: South Korea ‘emergency’ measures as infections increase. BBC News. 21 fev. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia-51582186. Acesso em: 23 mar. 2020.

[12] Coronavirus: South Korea ‘emergency’ measures as infections increase. BBC News. 21 fev. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia-51582186. Acesso em: 23 mar. 2020.

[13] KCDC. The updates on COVID-19 in Republic of Korea. 25 fev. 2020. Disponível em: https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030&act=view&list_no=366338&tag=&nPage=6. Acesso em: 23 mar. 2020.

[14]  KCDC. The updates on COVID-19 in Korea of 15 March. 15 mar. 2020. Disponível em: https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030&act=view&list_no=366557&tag=&nPage=2. Acesso em: 23 mar. 2020.

[15] Coronavirus: South Korea seeing a ‘stablising trend’. BBC News. 15 mar. 2020. Vídeo disponível em: https://www.bbc.com/news/av/world-asia-51897979/coronavirus-south-korea-seeing-a-stabilising-trend. Acesso em: 23 mar. 2020.

[16]Coronavirus cases linked to call centre cluster in Seoul hit 90, says mayor.The straits times. 11 mar. 2020. Disponível em: https://www.straitstimes.com/asia/east-asia/coronavirus-cases-linked-to-call-centre-cluster-in-seoul-hit-90-says-mayor. Acesso em: 23 mar. 2020.

[17] SMITH, Nicola. Seoul call centre linked to major coronavirus cluster in South Korea. The Telegraph. 11 mar. 2020. Disponível em: https://www.telegraph.co.uk/news/2020/03/11/seoul-call-centre-linked-major-coronavirus-cluster-south-korea/. Acesso em: 23 mar. 2020.

[18] KCDC. The updates on COVID-19 in Korea as of 23 March. Disponível em: https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030&act=view&list_no=366627&tag=&nPage=1. Acesso em: 23 mar. 2020

[19] YONHAP. Daegu reports another cluster infection from nursing hospital. The Korea Herald. 18 mar. 2020. Disponível em:  http://www.koreaherald.com/view.php?ud=20200318000550&ACE_SEARCH=1. Acesso em: 23 mar. 2020.

[20] KCDC. The updates on COVID-19 as of 5 April. Disponível em: https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030. 05 abr. 2020. Acesso em: 05 abr. 2020.

[21] CHOON , Chang May. Coronavirus: From ‘crazy zumba aunties’ to church devotees, South Korea’s growing clusters raise concerns. 21 mar. 2020. Disponível em:  https://www.straitstimes.com/asia/east-asia/coronavirus-from-crazy-zumba-aunties-to-church-devotees-south-koreas-growing-clusters. Acesso em: 23 mar. 2020.

[22] DUDDU, Praveen. Coronavirus in South Korea: COVID-19 outbreak, measures and impact. Pharmaceutical Technology. 23 mar. 2020. Disponível em: https://www.pharmaceutical-technology.com/features/coronavirus-affected-countries-south-korea-covid-19-outbreak-measures-impact/. Acesso em: 23 mar. 2020.

[23] KCDC. Urges cooperation in preventing the spread of 2019-nCoV in community. 28 jan. 2020. Disponível em: https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030&act=view&list_no=365888&tag=&nPage=13. Acesso em: 23 mar. 2020.

[24] KCDC. 46 additional cases of COVID-19 have been confirmed in Korea. 23 mar. 2020. Disponível em: https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030&act=view&list_no=366308&tag=&nPage=7. Acesso em: 23 mar. 2020.

[25]  Korea to tighten rules on stock short selling amid market rout. The Korea Times. 10 mar. 2020. Disponível em: http://www.koreatimes.co.kr/www/biz/2020/03/602_285890.html. Acesso em: 23 mar. 2020.

[26] MI-YOUNG, Ahn. Coronavirus cases have dropped sharply in South Korea. What’s the secret to its success? AAAS, Seul. 17 mar. 2020. Diisponível em: https://www.sciencemag.org/news/2020/03/coronavirus-cases-have-dropped-sharply-south-korea-whats-secret-its-success. Acesso em: 23 mar. 2020.

[27] WORLD METER. Disponível em: https://www.worldometers.info/coronavirus/#countries.  Acesso em: 01 abr. 2020.

[28] TERHUNE, Chad; LEVINE, Dan; JIN, Hyunjoo; LEE, Jane Lanhee. Special Report: How Korea trounced U.S. in race to test people for coronavirus. Reuters. 18 mar. 2020. Disponível em: https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-testing-specialrep-idUSKBN2153BW. Acesso em: 23 mar. 2020.

[29] WATSON, Ivan; JEONG, Sophie. Coronavirus mobile apps are surging in popularity in South Korea. CNN Business. 28 fev. 2020.  Disponível em:  https://edition.cnn.com/2020/02/28/tech/korea-coronavirus-tracking-apps/index.html. Acesso em: 23 mar. 2020.

[30] Coronavirus privacy: Are South Korea’s alerts too revealing? BBC News. 5 mar. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia-51733145. Acesso em: 23 mar. 2020.

[31] COVID-19 National Emergency Response Center, Epidemiology & Case Management Team, Korea Centers for Disease Control & Prevention. Contact Transmission of COVID-19 in South Korea: Novel Investigation Techniques for Tracing Contacts. OSONG Public Health and Research Perspectives, Coreia do Sul. 18 fev. 2020. Disponível em: https://ophrp.org/journal/view.php?doi=10.24171/j.phrp.2020.11.1.09. Acesso em: 23 mar. 2020.

[32] TIDY, Joe. Coronavírus leva governo de Israel a se dar ‘poderes especiais’ de espionagem. BBC News, Brasil. 18 mar. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-51938946?at_medium=custom7&at_custom3=BBC+Brasil&at_custom4=784D618C-692E-11EA-A7AE-D7F139982C1E&at_custom2=twitter&at_campaign=64&at_custom1=%5Bpost+type%5D. Acesso em: 23 mar. 2020.

 

 

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