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Memes e web archiving

Rangel Oliveira Trindade • João Marcos Hodecker de Almeida

O termo “meme” foi criado em 1976 pelo geneticista e autor de best-sellers Richard Dawkins para se referir a comportamentos e características passadas entre pessoas de modo cultural, e não genético.

Em outras palavras, para o filósofo Dan Dennet, o meme é um “pacote de informações com atitude”.

Dawkins buscou explicar que enquanto o gene era responsável pelas mudanças físicas no ser humano, o meme era responsável pela mudança do comportamento.

1. O conteúdo da internet não é eterno

No entanto, nos últimos anos esse termo escapou do âmbito da biologia e sociologia para o meio do entretenimento na internet. Para Patrick Davison o meme de internet é um elemento cultural que se dissemina pela transmissão online, e que normalmente possui um tom humorístico. GIFs, vídeos, tirinhas, bordões e fotos são alguns dos meios pelos quais os memes se difundem. Outra característica é o de sua rápida disseminação na web, que pode ser visto por milhões de usuários em poucas horas.

Davison também afirma que a piada oral se perpetua no mundo principalmente por meio da memória das pessoas, enquanto que o meme da internet, além da lembrança humana, também sobrevive ao tempo por meio de sites, fóruns e páginas no Facebook e em outras redes sociais.

Todavia esses endereços, assim como no mundo terreno, sempre estão fadados ao fim e ao esquecimento. Por exemplo, de acordo com uma pesquisa citada por Peter Lyman, cerca de 44% dos sites criados em 1998 podem ter deixado de existir em 1999. Embora seja a maior fonte de informação que o mundo já viu, o conteúdo da internet não é eterno, e por conseguinte, os memes também não são.

2. Memes são uma nova forma de expressão social na Internet

Tendo o cuidado de preservar essa nova forma de expressão social, o Centro de Folclore Americano (em inglês, American Folklife Center), componente da Livraria do Congresso dos Estados Unidos, revelou em junho de 2014 que iria catalogar documentos e sites sobre internet culture, incluindo é claro, sites sobre memes.

Desde o ano 2000 a Biblioteca do Congresso já reúne milhares de páginas da internet, como sites de campanhas políticas ou de jornais.

O web archiving, instituto que permite a preservação das informações da internet já possui inúmeras iniciativas, como a da já citada Livraria do Congresso, a independente Internet Archive ou a Biblioteca Nacional Francesa, que capta toda página de domínio francês e já possui cerca de 20 bilhões de URLs (TRINDADE, 2014).

3. Memes e web archiving

A preservação dos memes é vital para observar os momentos pelos quais passamos.

Por exemplo, o meme “The Situation Room”, tem origem na fotografia tirada do Conselho de Segurança Nacional norte-americana ao saber da morte do terrorista Osama Bin Laden, em maio de 2011, o mês em que de acordo com a Google houve um pico de pesquisas acerca da foto, do meme e do tema.

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre os sites preservados pela Biblioteca do Congresso está o “Know your meme”, página que reúne a história, evolução, polêmicas e derivações de inúmeros memes, como o citado acima.

Assim, com a devida proteção dessas informações, o grande público terá conhecimento da origem dessas novas expressões folclóricas, bem como de seus criadores, que aliás já sofreram com as derivações de suas artes.

Um exemplo disso foi o criador do meme “Pepe the frog”, Matt Furie, o qual viu sua obra sendo utilizada por grupos racistas e de extrema direita, em especial durante a eleição presidencial norte-americana de 2016. Essas manifestações levaram Furie a utilizar o copyright (direito autoral, no Brasil) para proteger o meme e a si mesmo, com o argumento de que uma “distorção do significado original do personagem”.

Memes e web archiving são temas muito recentes e talvez de pouca importância para a sociedade e para o direito, mas não para a internet. Diferente das épocas antigas, que podem ser resgatadas por meio de vestígios arqueológicos ou dos ritos e tradições orais, o passado da internet, sem um serviço de arquivamento e estudo, estará sempre ameaçada pelo esquecimento eterno.

Para evitar a perda deste rico conteúdo de Internet, cada meme reconhecidamente relevante deve ser preservado de forma que possa ser arquivado, seguro e acessível ao longo do tempo, e isto é necessário.

Promover o desenvolvimento e utilização de ferramentas comuns, técnicas e normas que permitem a criação de arquivos internacionais é importante, pois não podemos permitir a perda de cerca de 2/3 de sites, que, como dito, podem guardar memes.

Incentivar e apoiar as bibliotecas nacionais, bem como iniciativas acadêmicas – até mesmo de origem privada com finalidade pública – é fundamental.

REFERÊNCIAS

BROGAN, Jacob. Slate: Memes Are the New Jump-Rope Songs. Disponível em: <http://www.slate.com/articles/technology/future_tense/2017/09/the_library_of_congr ess_web_cultures_web_archive_is_collecting_memes_as.html>. Acesso em: 30 de abril de 2018.

DENETT, Dan. Memes perigosos (Dangerous memes). TED TALKS. 2002.Disponível em: <https://www.ted.com/talks/dan_dennett_on_dangerous_memes?language=pt-br>. Acesso em: 13 abr. 2018.

DAVISON, Patrick. The language of internet memes. In: MANDIBERG, Michael. The social media reader. New York and London: New York University Press, 2012. p. 120-134.

INTERNET ARCHIVE. About the internet archive. Disponível em: <https://archive.org/about/>. Acesso em: 30 de abril de 2018.

KNOW YOUR MEME. The situation room. Disponível em: <http://knowyourmeme.com/memes/the-situation-room>. Acesso em: 30 de abril de 2018.

LYMAN, Peter. archiving the world wide web, In: BUILDING A NATIONAL STRATEGY FOR DIGITAL PRESERVATION. Washington: Library of Congress e Council on Library and Information Resources, 2002.

ROSATI, Eleonora. The IPKat: Furie-ous creator of Pepe the Frog determined to use copyright to get his green creation back. Disponível em: <http://ipkitten.blogspot.com.br/2017/09/furie-ous-creator-of-pepe-frog.html>. Acesso em: 30 de abril de 2018.

SAYLOR, Nicole. Library of congress: Getting serious about collecting and preserving digital culture. Disponível em: <https://blogs.loc.gov/folklife/2014/06/getting-serious-about-collecting-and-preserving-digital-culture/?loclr=blogflt>. Acesso em: 30 de abril de 2018.

TRINDADE, Rangel. O Web archiving e a preservação de sites. Boletim do GEDAI, UFPR, ed. 3, ano 7, fevereiro de 2014. Disponível em: <http://www.gedai.com.br/?q=pt-br/boletins/boletim-de-direito-autoral-e-industrial-do-gedai-novembro2014/o-web-archiving-e-preserva%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em: 30 de abril de 2018.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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